Livro do Desassossego (1982)
"A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos.
Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não
sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis.
O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas
elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor,
sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono
desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína
de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão
porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar,
porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa
que paguemos por ter gozado dela.
O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é
nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.
Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso
— o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo
objectivo.
Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência"
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1982.
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