...
Segurávamos cuidadosamente o livro verde de capa dura. As mãos, quase dadas, tocavam-se, enquanto o volume pairava sobre elas sem peso algum. As mãos sobrantes apontavam para a quadra com as palavras que mais revelavam os sentimentos de cada um. Muito silenciosamente, parávamos para os nossos olhos sorrirem entre eles. Assim, nos revelámos, no silêncio e no calor, a ler as quadras de Pessoa. Se com o teu toque me curaste as feridas da lucidez, um beijo não sei o que faria...
Trazes a rosa na mão
E colheste-a distraída...
E que é do meu coração
Que colheste mais sabida?
Levas uma rosa ao peito
E tens um andar que é teu...
Antes tivesses o jeito
De amar alguém, que sou eu.
Ambos à beira do poço
Achamos que é muito fundo.
Deita-se a pedra, e o que eu ouço
É teu olhar, que é meu mundo.
Boca com olhos por cima
Ambos a estar a sorrir...
Já sei onde está a rima
Do que não ouso pedir.
Boca de riso escarlate
E de sorriso de rir...
Meu coração bate, bate,
Bate de te ver e ouvir.
Não sei que grande tristeza
Me fez só gostar de ti
Quando já tinha a certeza
De te amar porque te vi.
Duas horas te esperei
Dois anos te esperaria.
Dize: devo esperar mais?
Ou não vens porque inda é dia?
Dias são dias, e noites
São noites e não dormi...
Os dias a não te ver
As noites pensando em ti.
(Quadras de Fernando Pessoa, 1956)
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